Senza Ritorno: A Viagem dos nossos Antepassados Italianos

imigração italiana - navios

Hoje resolvi falar um pouco mais sobre algo muito presente nas memórias e relatos sobre imigração italiana dos nossos antepassados para o Brasil. Quem nunca ouviu coisas do tipo? Meu nonno nasceu no navio, eles contavam que as pessoas que morriam eram jogadas no mar, ou ainda, o parente da nonna morreu no navio. Coisas desse tipo! E, quem não lembra da Terra Nostra, não é? Ela passou na Itália também, inclusive tendo várias reprises. Gostos à parte, a novela nos aproximou um pouco mais da nossa história. Diz a verdade, você também torceu pelo amor da Giuliana e do Matteo. Ok! Novela à parte, quero aprofundar alguns aspectos menos românticos da viagem transoceânica dos nossos antepassados. 

Dificilmente uma longa viagem, senza ritorno, não era algo muito bem pensado, planejado e ponderado. Nesse caso era preferível o desconhecido – o Brasil – do que a realidade conhecida – a Itália – com a fome e a miséria. 

Os emigrantes partiam em busca de pão e trabalho. Não raramente ia um integrante da família na frente e, posteriormente, através das cartas, mantinha contato ressaltando as belezas da colônia e mandando buscar os familiares que haviam ficado na Península Itálica. Uma das grandes propagandas da imigração italiana foram as cartas aos parentes de além-mar.

 

Catia foto - carta imigranteCarta de Guaropé, RS, no Museo Etnografico di Seravella, Belluno 

Os relatos referentes à travessia contam quase sempre que muitas pessoas morriam ou, quando doentes, eram jogadas ao mar. Os navios que transportavam os imigrantes não tinham segurança, e muitos destes afundaram – quase unânime entre os historiadores é citar o caso do Sírio. 

Sírio era um navio a vapor italiano, inaugurado em 1883 e afundou em 1906. Seu trágico naufrágio, no qual pereceram quase 300 pessoas, é um dos desastres navais mais graves da marinha mercante italiana, tão impactante, que foi escrita uma música sobre esse episódio. Os emigrantes italianos estiveram envolvidos em dezenas de naufrágios, por exemplo, o do vapor Utopia em 1891 que causou 576 mortes, no Ortigia morreram 249, América do Sul com 80 mortes em 1880, Borgonha, em 1898, com 549 mortes e a Principessa Mafalda em 1927 onde 385 pessoas morreram.

Escute a música e leia abaixo a sua letra:

E da Genova il Sirio partiva

Per l’America al suo destin

Ed a bordo cantar si sentiva

Ma tutti allegri a varcare il confin

 

Il quattro agosto, alle cinque di sera

Nessun sapeva del triste destin

Urtò il Sirio un terribile scoglio

Di tanta gente la misera fin

 

Si sentivano le grida strazianti

Padri e madri con le onde lottar

Abbracciavano i loro car figli, ma

Ma poi sparivano tra le onde del mar

 

Tradução:

E de Gênova partiu o Sírio

Para a América a seu destino

E a bordo eles cantavam

Mas todos estavam contentes por cruzar a fronteira

 

No dia 4 de agosto, às cinco horas da tarde

Ninguém sabia do triste destino

O Sírio atingiu um terrível recife

De tanta gente, o fim miserável

 

Sentiam-se os gritos

Pais e mães que lutavam com as ondas

Abraçando seus filhos queridos, 

Mas depois eles desapareceram entre as ondas

 

NO NAVIO

No navio, aos emigrantes era destinado a cuccetta – espaço muito estreito – uma espécie de dormitório coletivo. Nele encontravam-se beliches com colchões de crina, travesseiros e cobertores de lã, infestados de parasitas e piolhos. Após 1895, tudo indica que não se tomava um banho completo durante a viagem o que favorecia o aparecimento de doenças. O imigrante Luigi Toniazzo, escreveu sobre seus companheiros de viagem do Andrea Doria, em 1893:

Assoavam o nariz com as mãos, bem a nossos pés, quando estávamos a comer, […] e estavam cheios de piolhos, como galinhas; coçavam-se no seio de suas mulheres e estas ficavam a matar os piolhos na presença de todos […].

A pesquisadora italiana Augusta Molinari estuda a questão sanitária durante a viagem, trazendo informações de grande relevância, por exemplo, a primeira lei orgânica referente a aspectos sanitários das viagens datando de 1901. As más condições higiênicas da viagem representavam um grande risco à proliferação de doenças entre seus tripulantes. A temperatura no navio era irrespirável, o gás carbônico e o odor exalado dos corpos, unidos ao cheiro da urina e fezes, que durante a noite eram feitas nos cantos dos dormitórios, tornavam o local propício a epidemias. Geralmente entre os doentes figuravam em maior escala as crianças e idosos, que apresentavam baixa imunidade e a mortalidade atingia principalmente crianças – até 3 anos – e idosos mais vulneráveis às doenças. 

 

MORTES E NASCIMENTOS

Em 1907, no navio Gallia, cinquenta crianças de zero a três anos morreram de tracoma. Outra doença que atingia crianças, em grande escala, causando óbito, era a varicela. Além do stress causado pela viagem aos recém-nascidos, havia outra dificuldade que era a manutenção do aleitamento materno. O relatório de 1903 a 1925 do Comissariato Generale Dell’emigrazione mostrou que as doenças mais comuns entre os viajantes eram malária, pneumonia, sarampo, sarna, sífilis, tracoma, tifo, tuberculose, varicela e varíola.

O sarampo foi, particularmente, feroz quando atacou o navio a vapor Pará, em 1889, matando 34 pessoas. Em 1909, os tripulantes do navio Bologna, que fazia a rota para a Argentina, foram afetados por uma epidemia de sarampo contagiando duzentas crianças e mais de vinte adultos. Em 1912, no navio Conte di Biancamano houve uma epidemia de varicela e tracoma que vitimou 15 crianças e deixou outras 100 pessoas gravemente feridas.

Um olhar mais aprofundado nas listas de bordo do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro nos mostra as mortes e os nascimentos durante a travessia transoceânica.

Veja mais no site do Arquivo Nacional.

No Vapor Clementina, que chegou ao Brasil em 1878, houve 31 mortes registradas (considera-se que em alguns casos as mortes e nascimentos não eram registrados pelo comandante na lista de bordo), a maioria crianças e um pai de família juntamente com seus três filhos.

 

Anotações em uma lista de bordo do navio

Impossível não relacionar a morte durante a viagem com o sepultamento, pois os corpos eram jogados ao mar e permeiam a memória histórica sobre a viagem. É preciso pensar que o navio era propício à proliferação de doenças, gerando epidemias e atingindo, principalmente, crianças e idosos. O não sepultamento dos corpos poderia agravar as já precárias situações sanitárias. Os cadáveres putrefatos certamente seriam portadores de riscos à saúde dos que permaneceriam no navio e, estando sem local propício ao sepultamento, a água surgia como única solução.

Os navios geralmente transportavam os imigrantes na terceira classe. O número de pessoas transportadas variava de 800, como no caso do Colombo, a 1800, como no Giulio Cesare, porém não mudava em nada a precariedade dos tratamentos dispensados.

 

Vapor Matteo Bruzzo

Um caso ficou muito famoso e ocupou os principais jornais, na Itália e no Brasil, em 1893. O caso do Piroscafo Remo, onde por culpa de um surto de cólera, 96 pessoas morreram. O navio não foi aceito no Brasil com 1500 passageiros a bordo e somente um médico e parece que, ao que tudo indica, esse não foi um caso isolado.

O vapor Carlo Raggio, em quarentena no porto de Isola Grande junto com o Remo, teve 211 mortes devido a uma epidemia de cólera e sarampo. Outros passageiros já haviam morrido, no mesmo navio, seis anos antes devido à fome. Saiba mais.

Infelizmente temos ainda muito a descobrir e aprender com essas histórias. Mesmo passados tantos anos, a sensação é que sabemos muito pouco. Portanto, comece agora mesmo a pesquisar a sua história familiar, ela é a base de tudo e, quem sabe, você não vai se surpreender com as descobertas. 

Para saber mais, contate-nos.

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